Travessia Jorge x Serra dos Poncianos – Monte Verde/MG

Dona de belas paisagens da Serra da Mantiqueira e com trilhas mais acessíveis para quem não é acostumado a fazer trilha, Monte Verde é uma ótima opção de ecoturismo. Situada no sul do estado de Minas Gerais, ela apresenta características européias em suas construções e no clima, chegando a temperaturas negativas. Possui os mesmos atrativos da agitada Campos do Jordão mas com a tranquilidade que uma pequena cidade do interior pode oferecer aos seus visitantes. O foco principal é o turismo para casais, mas os apreciantes do montanhismo brasileiro sempre a tem em sua lista de destinos, e comigo não poderia ser diferente!
A topografia acidentada da região é dominada pelas imponentes montanhas da Mantiqueira, cujos picos se elevam a mais de 2000 metros de altura. Um passeio obrigatório para quem visita Monte Verde é percorrer os caminhos que levam aos mais altos pontos da serra. É impossível não se impressionar com a imponência do cenário e com o espetáculo visual proporcionado pela natureza! De acordo com sua preferência e disposição física é possível optar por fazer uma trilha por vez, emendar alguns picos em um mesmo dia, ou fazer a travessia da serra, conforme relato a seguir.
Com quase 4 meses de afastamento dos perrengues de trilha por causa de uma cirurgia de emergência para retirada de vesícula, que fiz no retorno do rolê em Ubatuba na páscoa e tendo uma fase de recuperação das braba, a crise de abstinência já estava ficando fora de controle! Há alguns meses o grupo do face Nação Trilheira estava programando de fazer a travessia São Francisco Xavier x Monte Verde pela Trilha do Jorge, que no fim foi agendada para 09/08/14. Com a liberação do médico para eu voltar a fazer trilha “leve” (mau sabe o Dr o que passei nessa trip!), eu e o Clóvis decidimos ir, mas como não havia mais vagas na van que levaria o pessoal até SFX e depois os buscariam em MV, e o contrato de um resgate nesse trecho teria um custo alto, decidimos ir por conta, maaaaas para fazer um outro roteiro, e é aí que essa história fica emocionante 😉
Chegamos em Monte Verde eu e o Clóvis na sexta à noite. Embora os preços dessa cidade não sejam muito convidativos, pesquisando é possível encontrar valores mais acessíveis. Nós jantamos no restaurante “Empório Monte Verde”, um lugar bem aconchegante com preço bom e comida farta! Só tome cuidado com as taxas… eles não deixam explícito o cover artístico.

Uma informação importante para quem não dispensa um bom e aconchegante camping em troca de uma caríssima estadia em pousada: MV não tem camping! Mas em Camanducaia, a 4Km tem o ÚNICO camping da região, o Camping/Pousada/Pesqueiro Monte Verde (http://www.campingmonteverde.com.br/). É um camping bem bonito, bem organizado, com chuveiros quentes (impossível ter a água realmente quente naquele frio), com uma piscininha, quiosques com churrasqueiras, enfim, adoramos o local! O valor da diária é de R$25,00 e quem não tem barraca pode alugar por R$5,00 juntamente com colchões e as refeições são oferecidas a R$15,00.

Travessia Jorge x Serra dos Poncianos

Antes de qualquer trip, costumo pesquisar sobre os atrativos do lugar para poder aproveitar o máximo possível. Em minha busca, primeiramente estudei o site Guia Monte Verde que apresenta os atrativos da cidade e um pouco da região (SFX). Posteriormente dei de cara com o relato do Jorge Soto, montanhista chileno mucho loco, no qual ele falava sobre uma tal de travessia da Serra dos Poncianos. O Clóvis, como bom perrenguento, topou fazer um puxadinho na famosa trilha do Jorge e ir parar nessa tal travessia da Serra, pegou um tracklog do caminho e lá fomos nós…. Aqui descrevo o caminho que fizemos desde a trilha do Jorge até o Pico da Onça, passando pela Pedra Partida e terminando na Pedra Redonda. Chapéu do Bispo, Platô e Pico do Selado não deu tempo de fazermos.

No sábado, pela manhã, fomos eu, Clóvis, Michel e seu irmão Cléber nos encontrar com o Rafael e Thiago no StarBar (o bar mais alto do BR). Após demoradas discussões sobre onde começar, se levaríamos cargueira ou não, se iamos acampar no meio do matagal ou não, finalmente decidimos começar pelo Pico da Onça, indo pela Trilha do Jorge. Deixamos um dos carros no Starbar (que cobra R$10,00) e com o outro seguimos em forma de lata de sardinha até um hotel chamado Missões, que inclusive parece no mapa dos Picos de MV, que pegamos no Centro de Infos Turísticas. Iniciamos pela trilha que segue ao lado desse hotel, por volta das 10 horas e após algumas bifurcações erradas nos deparamos com o riacho que quem faz a travessia SFX x MV encontra no finalzinho da Trilha do Jorge.

Um pouco mais a frente nos separamos do Thiago e do Raffa. Eles decidiram não acampar no meio do mato e por isso precisavam andar rápido para voltarem antes do anoitecer. Como a gente estava com uma bagagem considerável com comida e coisas de camping, estávamos lentos (ainda mais a recém operada aqui…) Então, fomos no nosso ritmo, debaixo de um sol bravo, parando no Bosque dos Duendes para comer. Gostaria de ver esse bosque no amanhecer ou anoitecer, deve ser bem macabro. Infelizmente uma neblina chegou depois de alguns minutos que partimos, e perdemos o tão esperado visu das serras ao longo da trilha mais aberta 🙁
Quando voltamos a andar, por volta das 13:30hr, começamos a escutar vozes. Pelo horário já estávamos esperando companhia e batata: pessoal do nação trilheira! Eles vieram de encontro a nós, já que estávamos fazendo o caminho contrário (MV x SFX) em direção ao Pico da Onça. Já tentei ir com esse pessoal em alguns rolês, mas sempre houve algo que impediu… Deixo aqui meus agradecimentos ao Francisco que me ajudou com muitas infos quando estava pensando em me juntar a eles e ir por conta de busão. 😉

Por volta das 15:00hr e depois de uma bela piramba, chegamos no Pico da Onça!!!! Como esperávamos, não conseguimos ver nada o horizonte, estava tudo branco branco branco! Para essa foto eu coloco como legenda a música do Nirvana “where did you sleep last night?”…”Minha garota, não minta para mim. Me diga onde você dormiu ontem a noite. Nos pinheiros, nos pinheiros, onde o sol nunca brilha….”  Lembrando aqui que o Pico da Onça tem livro do cume heim gente! Esse foi meu primeiro livro assinado, de apenas dois haha

Uma das melhores vantagens de se fazer trilha: as amizades que vão se formando pelo caminho! A parte boa desse pico foi conhecer o Lucas, Carlos e Cibeli, uns amores! E os próximos rolês com essa galera já estão sendo arquitetados 😀 Após um booom descanso, iniciamos a trilha até a Pedra Partida, sem nossos novos companheiros, que acamparam na onça mesmo. Pegamos essa trilhinha da foto abaixo, e é aí que o aperto começa 😯
A maior dificuldade desse trecho foi encontrar o caminho certo! A trilha estava bem fechada e sempre nos deparávamos com várias bifurcações de trilhas de gado, cavalo, cachorro, cabra, rato e o que mais passasse por lá. Mesmo com o tracklog, nos perdíamos toda hora, pois a trilha simplesmente sumia! E quem gerou o caminho do tracklog provavelmente também se perdeu pois por vezes o trajeto acabava voltando a algum ponto anterior para partir novamente em outra direção. Com o cair da noite se aproximando e a neblina tampando boa parte da nossa visão, o jeito foi seguir o farejo do instinto… O Clóvis mandou muito bem na navegação e foi crucial sua experiência nessa hora!

O pôr do sol nós acompanhamos por debaixo da copa das árvores e uma lua enorme fez com que não sentíssemos saudade do sol. Fomos andando até encontrar um platôzinho onde paramos para descansar das várias horas de perdidos no matagal, e o Clóvis e Michel decidiram procurar um caminho de trilha batida… Uns 15 minutos depois voltaram, pegamos nossas tranqueiras e fomos….. fomos até darmos literalmente de cara com a Pedra Partida, e percebemos que estávamos f***.

A subida ia ser feita no esquema beija-pedra… com a lua brilhando daquele jeito, o caminho estava bem nítido, mas a paisagem era assustadora e o medo bateu. O Clóvis segurou a onda, com o psicológico super controlado, subiu na frente e foi procurar se havia outro caminho para fazermos. Não havia. Aí pegamos uma cordinha de fio dental, subimos as bagagem e depois subimos. Confesso que de minha parte o cagaço bateu forte, uma mistura de psicológico com cansaço, fome e bexiga estourando (nesse ponto não sabia se era de muita água na trilha ou o medo que estava batendo 😯 ). Na hora de subir o trecho mais exposto não houve muita dificuldade no fim das contas… no meio do matinho tinha até uma escadinha natural e no dia seguinte, quando voltamos nesse ponto, deu pra ver que, sob a luz do sol, nem precisava de tanto cagaço e, se houvesse, a queda no máximo quebraria uns dentes rs

Mas gentem…. quando subimos finalmente na Pedra Partida, demos de cara com a lua DAQUEEEEEELE tamanho \0/ e um mar de nuvens M A R AV I L H O S O!!!!! Tínhamos uma paisagem linda, bem ampla e super visível, ao contrário da que tivemos no Pico da Onça, e nos comunicávamos dali à distância com nossos novos amigos lá na onça por sinais de lanterna (ou eram os ets? 8O) Minha felicidade era enooorme! Eu sonhava em ver um mar de nuvens! 😀

Pois é, após acalmar o coraçãozinho, era hora de encontrar um buraco para dormir, o que estava parecendo impossível! Ficamos super agradecidos pelo caminho a partir dali estar bem demarcado e ser de boa, mas os bambuzinhos não queriam nos deixar partir! Toda hora me seguravam pela minha cargueira que estava enooorme. A meta era chegar na Pedra Redonda em 1:00hr mais ou menos, ou seja, chegaríamos meio tarde… mas o cara lá de cima resolveu dar uma forcinha pros acabados no meio do mato, e nos enviou a uma “caverninha” formada por algumas rochas apoiadas…. meu, foi o camping perfeito! Ali estávamos protegidos dos ventos congelantes, possível chuva e com um terreno planinho para dormimos bem de boa 😀
Acampamento levantado, é hora do rango! E foi aí que eu percebi o porquê do Clóvis ter me zuado quando disse que estava levando miojo e feijão de caixinha! Ele fez um maravilhoso cuscuz marroquino com creme de abóbora e grão de bico… estava mais chique do que a comida q faço em casa! Juntando a isso o risoto de cogumelos alucinógenos do Michel e Cleber e o meu feijão… não precisávamos de mais nada né? Só dormir…. Combinamos de levantar as 5hr, papar, arrumar as malas e partir pra Redonda, ver o nascer do sol e o maravilhoso mar de nuvens. E foi isso que aconteceu… no meu sonho 🙁 Levantei com o sol na cara e o joelho direito repuxando que nem o diabo por volta das 8hr 😯 Acordei o pessoal, saímos eu e o Michel em busca de algum mirante para tentar finalmente ver a famosa paisagem de MV! Fomos andando em direção a Redonda até encontramos alguns lugarzinhos com essas paisagens “horrorosas”, e com o melhor:  ainda tinha mar de nuvens!

Com os meninos acordados, voltamos para a Pedra Partida para admirar aquele belíssimo visu a 2046m de altitude, e aproveitamos para verificar sob a luz do dia o aperto que passamos para subir ate ali:

Lá demos de cara com um pico que não sabíamos qual era, e que não constava no nosso tracklog… o Clóvis tava doido para desbravar esse novo pico, que depois soubemos pelo Renato, a Barsa das Montanhas, que aquela era a Pedra Bonita, e pelo roteiro CORRETO, teríamos passado por ela, e não pelo vara mato que fizemos da Onça até a Partida… bem, essa ficou para a próxima 🙁

Depois de ficar de boa ali por um booom tempo, voltamos à nossa caverna, arrumamos as coisas, tendo como plateia algumas turistas fazendo trilha de salto alto e nos admiravam como macacos em um zoo, e fomos para a Pedra Redonda. Só tinha um problema, eu não conseguia dobrar os joelhos 😯 Os meus 4 meses de repouso da cirurgia + mochila que estava meio pesadinha + os bambuzinhos pelo caminho que faziam a gente se rastejar toda hora + meu preparo físico que sempre foi ótimo = só podia dar nisso… 🙁 Eu realmente tive muita sorte de estar acompanhada por alguns dos meninos mais gentis com quem já fiz trilhas, e eles diminuíram o ritmo e fomos seguindo de boa.

No meio do caminho nos deparamos com esse platô que não sei o nome, mas a vista que se tem dele é bem legal, e você consegue enxergar bem próximo o pessoal no alto da Redonda.

O caminho para a Redonda é bem de boa… é comum encontrar moças fazendo trilha de salto alto, sapatilha, chinelo, sem água para beber e morrendo de sede…. essas pessoas nos encaravam como se fôssemos ETs com bastões de caminhada e cargueiras… entretanto para nós elas que vieram de Plutão! Enfim, tarde, mas chegamos na Redonda com seus 1950m de altitude! O melhor foi encontrar o céu azulzinho azulzinho 😀 Ela realmente é redondinha (jura?) e o espaço no seu cume é enorme…e a paisagem, não preciso nem falar né 😉 E aqui encontramos nossos dois companheiros voltando do Pico do Selado com seu novo cãopanheiro!

A partir da Redonda realmente não há trilha para o próximo pico, o Chapéu do Bispo, então o jeito é voltar até o Starbar e em frente a ele pegar outra trilha. Mas, como chegamos tarde na Redonda, decidimos ir até a cidade comer e talvez voltar e terminar a trilha. Mas, com a preguiça que deu depois de encher o bucho, optamos voltar em outra data e fazer a travessia da Serra dos Poncianos completa e agora pelo caminho correto, incluindo a Pedra Bonita rs

Como já comentei, essa trip realmente foi emocionante para mim. Os meninos foram realmente maravilhosos, super educados, cavalheiros, gentis, sempre compreensíveis com o meu estado físico desde a decisão em fazer esse rolê, afinal, eu não sabia como meu corpo iria reagir depois da cirurgia barra pesada, carregando peso e andando por dois dias. Como disse, a maior recompensa das trilhas são as amizades que a gente forma durante elas. E sou imensamente agradecida pelas novas amizades adquiridas em Monte Verde: Clóvis, Michel, Cléber, Thiago, Raffa, Lucas, Carlos e Cibeli. Podem ter certeza que muitos perrengues virão e a amizade só há de crescer 😀


Local: Monte Verde/MG

Dificuldade: no geral, para iniciantes. Entretanto o trecho que fizemos do Pico da Onça para a Pedra Partida exige certa noção de navegação, mas ele não faz parte do roteiro indicado pela cidade!

Transporte: é possível ir de ônibus, porém não há ônibus de SP direto para Monte Verde, é necessário ir até Camanducaia e de lá pegar um circular para Monte Verde. O acesso às trilhas se dá próximo ao centro comercial da cidade, mas para quem estiver a pé, vai dar uma canseira!

Guia: fazendo os caminhos tradicionais não é necessário. No centro de informações turísticas há folders com indicação dos caminhos.

Duração: para fazer todas os picos da cidade, dois dias. Mas há roteiros individuais de bate-volta.

Gastos: apenas transporte e refeição caso desejar, se procurar bem nos restaurantes da cidade, encontra=se pratos por preços razoáveis.

O que levar: equipamentos de camping (barraca, isolante térmico, saco de dormir, lanterna, fogareiro e panelas), comida para jantar e para comer nas trilhas, proteção solar, roupa de frio e de trekking, câmera fotográfica!

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